Snowden responde…

Edward Snowden

“O povo precisa saber o tipo de coisas que um governo faz em seu nome, do contrário o consentimento dos governados* não tem sentido.”
Edward Snowden

O jornal britânico The Guardian preparou uma sessão de perguntas dos leitores ao ex-técnico da CIA, Edward Snowden, responsável pelo vazamento de documentos secretos sobre a espionagem global desempenhada pelo governo norte-americano. Leia a seguir uma seleção dos trechos mais interessantes e polêmicos:

PERGUNTA: Criptografar o meu e-mail é de algum modo bom para derrotar a vigilância da NSA? Meus dados de ID estarão protegidos por criptografia padrão?
EDWARD SNOWDEN: Criptografia funciona. Sistemas criptográficos fortes corretamente implementados são uma das poucas coisas em que você pode confiar. Infelizmente, a segurança dos endpoints é tão terrivelmente fraca que a NSA pode encontrar maneiras de contornar isso.

PERGUNTA: Autoridades dos EUA chamam-no de traidor. O que você diz?
EDWARD SNOWDEN: Ser chamado de traidor por Dick Cheney (Ex-vice-presidente americano que desempenhou um papel-chave no governo do presidente George W. Bush) é a maior honra que você pode dar a um norte-americano.

PERGUNTA: Por que esperar para liberar os documentos, se você disse que queria contar ao mundo sobre os programas da NSA desde antes de Obama se tornar presidente?
EDWARD SNOWDEN: As promessas de campanha e a eleição de Obama me deram fé de que corrigiríamos os problemas que ele delineou em sua busca por votos. Muitos americanos sentiam de forma semelhante. Infelizmente, pouco depois de assumir o poder, ele fechou a porta da investigação de violações sistemáticas do direito, aprofundou e ampliou diversos programas abusivos e se recusou a gastar capital político para acabar com violações de direitos humanos.

PERGUNTA: Você disse aqui que você admira Ellsberg e Manning, mas tem argumentado que há uma distinção importante entre você e o “exército privado”: “Eu avaliei cuidadosamente cada documento que revelei para garantir que eram legitimamente de interesse público. Há documentos que teriam causado um grande impacto mas que eu não divulguei porque prejudicar as pessoas não é o meu objetivo. Transparência é.” Você está sugerindo que Manning despejou indiscriminadamente segredos nas mãos do Wikileaks e que tinha a intenção de prejudicar as pessoas?
EDWARD SNOWDEN: Não, não estou. O Wikileaks é um canal jornalístico legítimo e eles editam cuidadosamente todas as suas publicações de acordo com um julgamento de interesse público. A liberação não editada no Wikileaks foi devido à falha de um jornalista parceiro em controlar uma senha. No entanto, eu entendo que muitos meios de comunicação têm usado o argumento de que “os documentos foram despejados” para parar Manning e quero deixar claro que essa não é uma afirmação válida aqui.

PERGUNTA: Quantas cópias de documentos divulgados você fez? Quantas pessoas os têm? Se alguma coisa acontecer com você, eles ainda existirão?
EDWARD SNOWDEN: Tudo o que posso dizer agora é que o governo dos EUA não vai ser capaz de encobrir estes fatos me prendendo ou me matando. A verdade está chegando e isso não pode ser interrompido.

PERGUNTA: Dada à enormidade do que você está enfrentando agora em termos de repercussão, você pode descrever o momento exato em que soube que ia fazer isso, não importando as consequências? Foi uma série de momentos que culminaram na ação? Acho que saber como foi o “momento decisivo” pode ajudar outras pessoas a se tornarem denunciantes. Mais uma vez, obrigado pela sua coragem e heroísmo.
EDWARD SNOWDEN: Eu imagino que a experiência de cada um é diferente, mas para mim não houve um único momento. Eu estava vendo um rosário contínuo de mentiras de altos funcionários para o Congresso – e, portanto, o povo americano – e a percepção de que o Congresso suportava totalmente as mentiras me impulsionou a agir. Ver alguém na posição de James Clapper, diretor da Inteligência Nacional, mentindo descaradamente para o público sem repercussão foi a evidência de uma democracia subvertida. O “consentimento dos governados” não é consentimento se não tiver sido informado.

PERGUNTA: O que você diria para os outros que estão em posição de vazar informações confidenciais que poderiam melhorar a compreensão pública do aparelho de inteligência dos EUA e seus efeitos sobre as liberdades civis?
EDWARD SNOWDEN: Vale a pena morrer por isso.

Por fim, Snowden acrescenta:
“Lembre-se: só porque você não é o alvo de um programa de vigilância não quer dizer que ele seja legal. Cidadãos americanos/estrangeiros não são sinônimos razoáveis para suspeita individualizada, isso só é aplicado para facilitar o apoio ao programa. Esta é a razão que a NSA oferece ao Congresso para obter imunidade especial em sua vigilância.”

Acesse a entrevista completa (em inglês).

 

*“Consentimento dos governados” é uma frase da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776). É sinônimo de uma teoria política na qual a legitimidade de um governo e direito moral de usar o poder do Estado só é justificada e legal quando derivado das pessoas ou da sociedade em que o poder político é exercido. O artigo 21 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que “A vontade do povo será a base da autoridade do governo”. Leia mais sobre a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América

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